domingo
3 horas da manhã
Então eram 3 horas da manhã, acordei-me de sobressalto. Não sabia nem entendia o que havia acontecido. Meu quarto havia se tornado enorme, enorme do tamanho do mundo.
Foi então de súbito que olhei para o céu, com a janela aberta, tudo o que eu podia enxergar estava lá. A imensidão do céu ofuscado pela luz contagiante das estrelas. Fiquei por um tempo observando tão surpresa. Surpresa porque me desligara por completo das tristezas da madrugada, do medo do frio que a noite sempre me trouxera.
Refeita do inesperado, voltei para dentro do quarto, prestei atenção nas sombras dos moveis , prestei atenção no silencio do quarto, silencio que era interrompido nos ruídos de madeira antiga. Na verdade isso sempre me assustou, sempre tive a impressão de que alguma alma vagava pela casa carregando o fardo de uma vida e por vez entrava em meu quarto frio, mas o que os atraia para cá? Eu nunca chegara a ver nada, me tapava por completo com aquelas cobertas grossas e pesadas, afim de que nem respiração pudesse sentir por cima delas.
Minha gata entrou no quarto, ela era silenciosa, caminhava pela noite, prestava atenção em tudo e em todos os detalhes, em tudo que era feito a sua volta. Eram os meus olhos. Eu a chamava de meu bem, meu bem para cá meu bem para lá! E era como se ela me entendesse e na verdade era a única matéria viva que ainda me entendia. Acho que se eu morresse agora e tivesse que escolher alguém para levar, levaria a minha gata, pois não iria deixá-la sozinha nesse mundo tão cruel!
Algo soava estranho em mim, algo que eu nunca prestara atenção. Tranquei a respiração e comecei a escutar em meu interior as batidas de meu coração. Como eu nunca havia parado para realmente sentir o que vive em mim por 18 nos? Na verdade eu nunca havia sentido a vida. Quando andava na rua prestava atenção nas pessoas com suas vidas, nos animais que corriam soltos pelas ruas, nas árvores e nas folhas mortas que caíam delas. Será que estariam mesmo mortas?! Mas nunca havia me dado conta que a vida também existia em mim, que eu também existia na vida.
Olhei para o relógio, eram apenas 03h30min da manhã, mas como? Poderia jurara que passara uma eternidade me concentrando em mim. Levantei e parei diante do enorme espelho que havia na parede, sentindo o vento passando pelos meus cabelos, aquele ar gelado, que faziam voar os papeis... papeis em branco...papeis em branco postos em cima da escrivaninha. Olhei-me no espelho, ali, naquele momento comecei a girar em torno de mim e com os olhos sempre para o espelho. Então parei e comecei a me observar.
"Ela mantem suas mãos leves como se nada a pudesse parar. Flutua pelo ar em pequenas ondas que se fecham em círculos de confusão. Quando olha para dentro de si, sente medo, medo do oculto, medo de ser o que não é, e ao mesmo tempo sente medo de assumir o que é. Falta-lhe a cara da coragem. Ela não sabe a hora de parar, ela não sabe a hora de continuar, deixa tudo no inacabado."
Olhei-me fixamente nos olhos através do espelho, repentinamente as coisas pareceram mudar de forma e eu já não sabia o que era real e o que era da minha imaginação. Na calada da noite, uma ventania me pegou em distração então corri para fechar a janela e começou a chover. Fiquei ali sentada na cama olhando a chuva cair e com vontade de senti-la sobre mim. Mas eu não poderia sair, pois era tarde. Então abri a janela e deixei que o vento a trouxesse para mim. Aquela sensação foi realmente muito boa, era como se eu fizesse parte da chuva, me senti completamente parte da natureza e isso me deixou em estado de alegria.
Nenhuma sensação passaria despercebida por mim, o mais estranho é que isso nunca havia me ocorrido. Num limiar de sentidos, numa lista de palavras, nada poderia descrever o indescritível, achar o que não pode ser achado, levar o que está trancado a sete chaves.
Os pingos de chuva pareciam cristais que se quebravam ao bater no chão. E caiam com o peso do mundo, eram jogados das nuvens, sempre retornavam a ela quando a tormenta se ia. Mas, e os meus tormentos, quando se iam?
Tão tarde e ao mesmo tempo tão cedo, tudo depende do ponto de vista que se vê. Tão triste e tão feliz, depende do quê!
Comecei a me sentir embriagada olhando a rua deserta, embriagada de silencio. Haviam muitas palavras que eu precisava jogar ao vento afim de que em alguém pudessem chegar, mas eu não consegui dizer nada, então fiquei ali sem nada pensar. Eu procuro por mim constantemente.
Fiz uma longa viagem através do silencio, só escutava o barulho do vento lá fora e cai nas profundezas de mim mesma, num abismo sem fim. Será que haviam coisas ainda nas quais eu deveria tentar pensar?! Bem, eu não sei, mas acho que só tentaria porem não naquele momento, pois não estava com vontade de pensar. Mas acho que só de decidir não pensar eu já estaria pensando, será?! Bem, novamente eu não sei, mas agora bem que eu gostaria de saber, mas decidi não fazer esforço algum.
A única coisa que me ocorreu nesses últimos minutos foi uma profunda tristeza, só ainda não entendo do que. Eu tento cada vez mais buscar o sentimento dentro de mim, mas é difícil, é difícil sempre se auto avaliar. Por que é tão difícil reconhecer que algo está errado dentro de você? Seria por medo de não conseguir mudar? Fracassar?... Repentinamente o silencio foi quebrado por um estrondo e me assustei, logo caí em mim e a tristeza passou como num piscar de olhos, e eu mais uma vez não entendi nada! Tudo o que fiz foi me rachar em gargalhadas só de lembrar o meu pulo. Que maluquice!
Eu estive pensando sobre a felicidade, algumas pessoas precisam de coisas materiais para sentirem-se completas, para sentirem-se felizes. Mas há também aquelas pessoas que se sentem-se completas por apenas ouvir o cantar de um pássaro, ver uma borboleta voando, a chuva caindo, o vento passando pelos seus cabelos, um arco-íris no céu, uma musica de que gosta, quais dessas pessoas seriam as mais felizes? As que têm todas as coisas matérias e não sentem o prazer de ver uma manifestação da natureza ou as pessoas que apreciam apenas o divino e se sentem completas com as coisas simples da vida? E o que nós levamos dessa vida?! Acho que todos deveriam se perguntar! Pessoas roubam, mentem e matam por dinheiro e eu espero nunca na minha vida compactuar com isso...Todos tem o direito de ser livre e ninguém deve interferir no destino de ninguém.
Parece que meus pensamentos estão entrando por um caminho desconhecido. Explorando novos modos, novos lises de deslizes, me sinto talvez como uma lunática sei lá. Mas acho que isso é uma coisa boa, estou conectada e desconectada. Dividida em dois, parte do céu, parte da terra. Estou totalmente desfeita, à mercê, quando minhas defesas baixam! Vozes me chamam; dizem para ir mais além do que posso me dizem para não temer, pois o medo detém, ele muda o rumo das coisas. Talvez estas sejam vozes amigas, aquelas que despertam minha coragem, que me empurram contra o mundo e dizem: "Não volte até que tudo esteja em ordem". Então eu vou!
Uma vez me falaram "Todos nós devemos estra abertos para o conhecimento, abertos para descobrirmos outros tipos de ideias e principalmente, abertos para sempre nos admirarmos com as coisas e com nós mesmos, aceitarmos nossa vida como ela é, e se algo não vai bem... Devemos aprender com esses pequenos contratempos, pois as coisas que dão errado não podem ser maiores que as coisas que dão certo, se você errar uma vez, aproveite a oportunidade de corrigir imediatamente, ao invés de errar a vida toda e depois perceber que é tarde demais para se corrigir! Surpreenda-se com você mesmo, seja você o seu presente!" Ah se eu pudesse voltar no tempo.
As horas estão passando, dias, meses, anos. Percebi que durante a minha vida toda eu havia me procurado em todas as formas. Em cada grão de areia. Em cada nascer do sol. E não me dei conta que a cada gota de chuva eu estava me perdendo. Perdendo-me por não perceber que eu estava aqui, o tempo todo! Todos se foram, e eu fiquei aqui. Perdida no tempo, perdida em mim.
Por todos esses anos, nunca soube realmente quem eu era nunca soube das verdades que eu trazia em mim. O meu nome? Bem, isso não importa, na verdade eu nunca soube e nunca saberei. A única coisa que sei é que estou aqui e que não fiz nada. De olhos fechados para a vida.
...Após minhas especulações apropriadamente ditas, consenti a meu favor debruçar-me sob a relva de minhas emoções. Não tão nostalgicamente ditas, mas irrelevantemente adicionadas ao meu simples e sutil cotidiano...
Estou um pouco cansada dessa mesmice brava. Que há alguns anos eu havia me afeiçoado tanto, nunca fui de gostar de fortes emoções por assim dizer. Mas estou certa ao sentir que cansei. Junta com tanta indecência, jogada a tantos anos em uma rustica poltrona de um quarto insondável e vazio, do qual eu me alimentara de sua temperatura que esbravejava ao nascer do sol. Ah o sol! Eu observava todo o glamour das velhas revistas que um dia eu havia encontrado em um banco de praça, num lindo e longo dia nublado, naquele frio! Naquela chuva! Ah, a chuva!
Com um simples gesto, cai de joelhos e deitei-me no chão. E fiquei ali. Deslumbrando o teto iluminado por apenas um feixe de luz, foi então, que eu finalmente adormeci.
Carolina Marques
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