quarta-feira
A procura das borboletas
Com os pés descalços na grama ela balança os braços livremente. O sol está radiante e a brisa leve do final do dia entrelaça-se em seus cabelos. Ela procurou a vida toda por algo que pudesse se apaixonar!
Ela anda com tanto cuidado, um passo em falso e tudo pode mudar!
Chega o anoitecer, a lua está linda e as estrelas brilham como nunca. Ela deita na grama para observar a imensidão do céu. Como elas foram parar lá em cima...as estrelas?. Porque por agora nada mais importa, e lá vai ela procurando o que será capaz de preencher sua vazia alma, talvez ela sinta um grande medo de reconhecer a sua vida, mas nenhuma salvação se encontra lá em cima!
Ela junta todos os sonhos e guarda em um baú, o baú dos sonhos. Entre eles asas coloridas, entre elas a delicadeza de uma vida. Aquela doçura já não a alcança como antes, os olhos já não brilham o bastante, ela sabe que falta, ela sabe que está faltando alguma coisa em sua órbita. Mas ela não desiste!
Uma estrela cadente um pedido! A meia lua e um destino. Um dia voltaria a abrir o seu baú.
Andando pela praia, ela molha seus pés na água gélida do mar.."o mar nunca se cansa". De repente uma vontade de mergulhar, sempre avistamos a parte de cima, o que todos veem, mas ela queria um pouco mais, um pouco mais alem, de súbito "enterrou" sua cabeça na água e se atreveu a olhar, conchas, algas, pés. Somos parte de tudo o que vemos. Ao retornar a sua posição inicial, uma carta engarrafada vindo em sua direção, de quem seria? para quem seria?. Abriu-se um feixe de luz por entre as nuvens, e iluminou sua pele sardenta molhada pelos vestígios do mar, ao ler o conteúdo da carta, sua vida mudaria de vez!
O Carvalho
Conteúdo da carta
"Não sei se essa carta chegará a alguém, mas espero que o mar seja tão generoso comigo quanto depositei minha confiança nele. Meu nome é Caio tenho 16 anos e sofro de leucemia, venho lutando contra essa doença já faz algum tempo mas sinto Deus me chamar. As vezes durante a noite acordo com dores, sinto medo e me sinto só, gostaria de conversar com alguém, procuro manter a esperança, mas só tenho 16 anos e estou desse jeito.
Escreva-me.
Ps: Dizem que o mar é poderoso e acontecem coisas impressionantes, se minha carta chegou até você, tudo é possível"
Martine, (a menina de armadura) ficou arrepiada, de onde viera tal carta?. Ela guardou a garrafa com seu conteúdo surpresa embaixo de suas "asas" e voltou para o seu castelo. Depois de horas pensando no que escrever ela decididamente preencheu algumas linhas do papel de carta. Aquela garrafa? ela guardara.
"Me chamo Martine, tenho 15 anos moro em São Vale sinto muito por sua doença, espero que melhore. Muitas vezes também me sinto só, embora não tenha nenhum problema igual a você. Quando fico triste gosto de deitar na grama e olhar as estrelas, é como se elas me entendessem. O que você gosta de fazer? "
Martine L.
15/11/2011"
Uma longa noite
Na manhã seguinte, a primeira coisa que Martine fez ao acordar foi correr até a praia..pediu a um pescador para levar a carta engarrafada e jogar bem distante das ondas. - O mais longe que puder, gritou a menina!
Os dias que se seguiram foram de grande ansiedade, Martine ia á praia todos os dias, mas naquela tarde estava chovendo, com um ar contrariado de sua mãe ao tentar ir a praia mesmo com chuva, a menina ficou em casa, nem mil canecas de chocolate quente acalmariam-na. Aquele já era um dia perdido! Ao anoitecer, após a primeira trégua da bomba d'água Martine calçou seu par de chinelos vermelhos e correu, ao chegar á areia , próximo ao mar como que uma piada da pressa, Martine tropeçou e caiu, com seus joelhos doloridos e o susto, a pequena guerreira olha para as ondas, adivinha o que vem junto com elas?.
Sorria!
"Martine obrigada por escrever, estava achando que o mar havia se esquecido de mim. Também gosto de olhar para o céu, sobretudo olhar a lua. Mas também gosto de brincar com o meu cachorro, tenho um vira lata grande chamado Zeus, encontramos ele embaixo de um viaduto, estava muito magro e doente, ele é o meu melhor amigo a 3 anos. Minha mãe conversou com o meu médico, o Dr. Fernando e foi permitida a entrado do Zeus enquanto eu estivesse internado. Amanhã saio do hospital, não aguento mais ficar aqui. E ah, daqui a três dias é meu aniversário, ainda bem que já estarei em casa, minha mãe quer fazer uma festa, eu não queria mas sei que vai deixá-la feliz.
Caio"
Os olhos de Martine ficaram estatelados e brilhantes, boas noticias chegaram. Voltando para casa mais calma, ela pensava se contava para sua mãe do seu amigo misterioso. E como já era de se esperar, sua mãe perguntou qual o motivo da fuga.
- Mãe, outro dia na praia quando entrei no mar vi uma garrafa vindo em minha direção, e nela havia uma carta de um garoto de 17 anos, contando que tem leucemia e não tinha amigos, e tinha esperança que alguém escrevesse de volta, então eu escrevi, fiz um amigo. Eu ia te contar!
Lúcia mãe de Martine ficou com os olhos cheios d'água, achou bonita a atitude da filha. Deu-lhe um beijo na testa e foi para o quarto. Martine respirou aliviada e foi se deitar.
No dia seguinte depois da escola, Martine pensou na próxima carta, como era aniversario de Caio ela queria mandar algum presente. foi a mercearia da esquina e comprou alguns chocolates. Depois de quebrar as barrinhas de chocolate no tamanho suficiente de passar no gargalo da garrafa e colocá-los em saquinhos transparentes, a menina pegou algumas folhas de Carvalho e encheu a garrafa, e junto claro, uma carta.
"Sei que a carta chegará alguns dias depois do seu aniversário, mas espero que goste do presente. ontem contei a minha mãe sobre você, eu senti um frio na barriga mas deu tudo certo. Hoje fui a escola, tive prova de matemática. Eu não gosto muito de matemática, gosto é de escrever redação.
Me conte, ganhou muitos presentes? como foi a festa? Eu gosto de aniversário, mas o meu já passou. Contou aos seus pais sobre mim?
Dê uma cafuné no Zeus por mim.
Corrida ao mar!
Duas noites depois Martine sonhou que entrava em um quarto de hospital e um anjo saía voando com alguém nos braços, possivelmente seu amigo. Ao acordar molhada de suor a menina pôs-se a chorar.
Faltavam algumas semanas para o natal, Martine passava os dias ajudando sua mãe com os preparativos e compras de presentes, e claro intercalava a arrumação com idas a beira da praia. Sabia que as cartas demoravam para chegar, mas cada vez que lembrava do sonho ficava com o coração na mão.
Após uns dias a carta de seu misterioso amigo chegara, contou que havia ganho algumas roupas e livros, e confessou que esperava ganhar uma viagem a Disney, que desde pequeno era seu sonho, mas não foi dessa vez. A festa até que foi divertida, mas sentia-se cansado. Sua mãe estava curiosa sobre Martine e gostaria de conhece-la, e o pai, bem...ele nunca havia conhecido, foi embora logo que o menino nasceu.
Adorou os presentes de Martine, principalmente a carta que falava sobre o Carvalho. Nesse momento, ele chorou, deixou escorrer os pingos da emoção.
"O Carvalho é uma árvore que padece durante as tempestades, mas assim ela se fortalece mais e mais, sua raiz vinga mais fundo na terra. Essa é uma árvore muito utilizada como simbolo de força, de não desistir a cada tempestade, que você deve se manter firme para se reerguer com mais força e garra.
Mandei as folhas para você nunca esquecer da força que vive ai dentro.
Com Carinho Martine"
Martine sentia-se feliz a cada carta que recebia, e com a aproximação do natal ela teve uma brilhante ideia.
Os quatro dias que se seguiram Martine andava arquitetando algum plano, devido a tanta pressa a carta atrasou. Passado o tempo a garota escreveu outra carta, falando do seu dia a dia, de como estava o tempo etc. Depois de largar a carta no mar, ela caminhou na beira da praia, sentia-se tão bem com aquela brisa que vinha das águas, e gostava de olhar os pássaros.
Martine não era uma tipica adolescente que gostava de festas, moda e estar rodeada de pessoas, ela vivia sua vida voltada para o seu próprio mundo, e no seu mundo existia muita magia, contos e fadas. Como filha única, Martine sempre quis um irmão, alguém para conversar e dividir os deliciosos bolos que sua mãe fazia, mas era uma vontade sem sucesso. A pequena não era infeliz, havia muita esperança dentro dela, apesar de algumas vezes sentir-se só. A solidão tem o seu ponto positivo, ela nos faz olharmos para dentro e essa menina procurava por sua própria luz. No caminho para casa, Martine gostava de ir a uma praça cheia de natureza, ali era um de seus refúgios. Passando por entre as árvores, de repente Martine sentiu uma batida em sua cabeça..olhou assustada, era um Beija Flor. Não podendo conter o espanto, Martine sorrio, sentiu o ocorrido como um presente.
Beija Flor-Beija Sorte.
Normalmente as cartas levavam 6/7 dias para chegar, mas Martine notou uma certa demora, já haviam passado dez dias. Nesse dia quando Martine foi a praia, quando não avistou a carta sentou na areia e chorou.
-O que aconteceu? Resmungou baixinho.
Quando olhou para o lado, avistou um pedaço de gargalo na areia, de alguma maneira a garrafa ficou enterrada. E ao lera carta, um apertou fora plantado no coração da menina.
"Minha situação piorou, tive que voltar para o hospital. Estou com febre bem alta e houveram alguns problemas com a quimio. Não sei quando escreverei novamente, o hospital fica na Avenida Continental próximo ao mar, mas não querem me deixar sair. O Zeus agora está aqui do meu lado, ele me olha como quem sabe, como quem sente. Assim que possível escreverei novamente, cuide-se, e obrigada por tudo"
Martine era nova mas tinha maturidade o suficiente para entender os problemas da vida. Quando Martine entrou em casa, sua expressão era de tristeza, não desejava uma doença dessas para ninguém. Dias depois, sua mãe perguntou o que a menina queria de natal, ela pediu dinheiro a todos os familiares. - Esse ano quero ganhar dinheiro, disse a pequena. E não satisfeita, saiu para rifar na vizinhança uma cesta de natal com champanhe, bolos, passas e todas as coisas gostosas que comemos no natal.
O porquê, não sei!
Dias se passaram..o pequeno anjo sem asas conseguiu arrecadar um bom dinheiro..com suas economias a cesta e os presentes de natal, seus bolsos estavam cheios.
O telefone toca.
Martine atende o telefone, a mulher do outro lado da linha pede angustiadamente para falar com ela..e para sua surpresa, era mãe de Caio. Dona Célia, pediu a Martine que fosse visita-lo no hospital,pois estava muito mal e chamava por ela. A menina passou o telefone para sua mãe, as duas conversaram por horas..dona Lúcia levará Martine para o hospital.
A garotinha entrou em estado de euforia, finalmente ia conhecer seu amigo,pena que nestas condições. O que dona Lúcia não imaginava, é que a filha havia guardado todo o dinheiro que ganhara para ver seu amigo no hospital..ficou muito emocionada pois sua filha tinha um bom coração.
Martine queria ir imediatamente ao hospital. Separou sua melhor roupa, pegou todo o dinheiro que arrecadara e junto de sua mãe saiu porta a fora. Atravessaram de carro a ponte que ligava as duas cidades. Chegando no hospital, se dirigiram a recepção do hospital e pediram pelo paciente Caio Reis. E bem nessa hora dona Célia aguardava-as no saguão. Deram um apertado abraço. Chegando no quarto numero 20, Martine gelou olhando seu amigo tão abatido e fraco..ela queria muito conhecer o menino, mas não naquelas condições.
Caio dormia e a garota sussurrou no seu ouvido "sou eu Martine" ele acordou no susto, Martine percebendo a fraqueza de seu amigo deu um beijo em sua testa. Conversaram por um tempo..ele estava muito triste, sentia que sua hora estava chegando e queria realizar seu sonho de viajar. Martine saiu em disparada do quarto, chamou sua ame e a Dona Célia, contou o que seu amigo tanto queria e disse que havia guardado o dinheiro que era seu presente de natal, para o amigo..queria lhe dar essa chance, essa alegria. As mães ficaram de boca aberta, que gesto doce, que lindo. Porém havia um problema, ele precisava continuar seu tratamento, e precisava de acompanhamento medico.
Depois de muita luta conseguiram liberação do hospital e dois médicos teriam de acompanhar na viagem, separaram todo equipamento, a cadeira de rodas, kits de primeiro socorros..tudo o que precisariam. Martine não poderá acompanhar na viagem, mas seu coração transbordou de alegria só de ajudar seu amigo, pediu noticias.
Os sonhos existem para serem sonhados e vividos, jamais esquecidos!
Três dias se passaram e finalmente as noticias chegaram..Dona Célia mandou fotos do viajante na Disney. Ele estava bem melhor, dava para ver nos seus olhos o brilho da vida. E assim os dias se passaram.
Dias depois.
Em uma manhã fria, Martine resolve ir a praia caminhar..ela sentiu que tudo começou diferente, sentia seu coração um pouco angustiado. Sentou na areia e ficou pensativa olhando o mar, a corrente de ar estava diferente e o céu nublado. E no meio daquele cinza todo surge uma borboleta branca..voando bem baixinho ela pousa numa pedra próxima a Martine. Ela adora borboletas.
Chegando em casa, Martine vê sua mãe chorando..noticias não tão boas. Houve uma complicação na saúde de seu amigo, eles voltaram a cidade a dois dias, fizeram de tudo..mas não puderam salvar o menino. Havia uma carta lacrada em cima da mesa para a menina, ele mandou assim que eles voltaram da viagem.
Com os olhos estatelados ela correu para o quarto, sem acreditar. Abriu a carta.
" Martine, me sinto mal novamente. Sei que a horá está muito mais próxima. Tudo o que eu quero lhe dizer é que você não pode salvar minha vida, pois a morte chega para todos, mas você salvou minha alma. Obrigada pela sua amizade, obrigada por ter respondido a primeira carta que enviei. Você foi meu feixe de luz na escuridão e lá de cima eu vou refletir de volta a luz p você. Estou partindo e não quero q você fique triste, obrigada por realizar o meu sonho, agora posso ir feliz..obrigada por ter vindo até o hospital sem nem me conhecer. eu precisava de alguém que me ouvisse, precisava de alguém que me desse um pouco de esperança e acreditasse em dias melhores. Eu estarei lá em cima como uma estrela sempre protegendo seu caminho.Seja sempre você."
Não tente pegar as estrelas, deixe que elas fiquem lá em cima sempre brilhando para você.
Sua missão estava completa.
Carolina Marques
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